terça-feira, 20 de maio de 2008

Espreita, Cotidiano e Vinho


Espreita
A cidade me oprime
com suas paredes e patas,
cuspindo sobre mim nervosos olhares
enquanto tateio seus cantos com os pés.
Seus cantos? Hah!
Quais cantos irão me incriminar
pelos desacatos afiados
que graffittei em branco muros?
Quantos minutos fúteis gastarão
tentando achar a estranha razão
da atitude dos que vivem na espreita?
A cidade me obriga a olhar
suas paredes de prata transparentes,
instigando-me a ter falsos desejos de posse,
mas é ela quem possui e ambiciona
nossos íntimos desejos.
Enquanto aqui estou, neste quarto escuro,
ela me espera lá fora
com sua mortífera nota promissória e seu discurso ensaiado,
pronta para comprar minhas dúvidas
e convencer-me a vender minhas opções.
Cotidiano
Cada degrau vomitado
dessa escada sem paz,
cada sangue,
cada cor de sujeira
impressa nessas calçadas tão caras,
cada vinho derramado
nesse chão que não merece estes pés que,
antes de mais nada,
caminham, sentem e chegam
(mas nunca ficam).
Vinho
Senti o frio
quando voltava para casa.
Já ébrio
vi um colega caído na calçada.
“Levanta e anda!”
E eram dois ébrios
na corda bamba da madrugada
de um inverno de junho.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

(Re)Virada Cultural

Rolou aqui em Sampa, no último final de semana, a chamada Virada Cultural, quando das 18horas de sábado até as 18hrs de domingo acontecem vários shows, eventos, apresentações artísticas, saraus, exibições de filmes, tudo de graça e aberto ao público. O local foi o centro antigo da cidade, nas imediações do Vale do Anhangabaú e praça da República, além de alguns Centros de Cultura nos bairros. No ano passado, assistimos Cólera, Ratos de Porão, Garotos Podres, Inocentes e Plebe Rude o dia inteiro. Muito bom!!!
Tentamos aproveitar ao máximo, e eu digo "tentamos" porque a carcaça já não é mais a mesma. Pelo menos a minha, já que a Marion tem quinze anos a menos que eu. Só que ela trabalhou bastante na sexta, e ainda levantou muuuuito cedo no sábado para fazer mais um serviço até o meio-dia. Dormimos durante a tarde mas, sabem como é... o fim de semana existe para 'colocar' as coisas em dia, quando a passagem da semana não nos permite.
Resultado: chegamos lá pouco antes da 20hrs, assistimos um pouco de jazz na Barão de Itapetininga, fomos pra República ver o que tava rolando e acabamos indo até o local onde rolava a feira de HQs. Voltamos pra a República e assistimos o Casa das Máquinas, clássica banda hard rock brasileira dos anos 70 (nunca na vida imaginei que ia ver esses caras). É claro que a banda tava um pouco 'reformada', já que os vocais e baixo ficaram ao cargo do Andria (Dr.Sin). Apesar disso, o caras não decepcionaram nem um pouco, pelo contrário.
Ficamos num lugar bem estratégico, entre um pipoqueiro, dois caras vendendo biras e outro maluco assando espetinhos (de gato, rato, pombo, sei lá). Entre várias biritas, a galera acendia isqueiros e o cheiro de coisas antigas pairava no ar, junto com aquele som setentista. Parecia que Wood & Stock tavam por ali. Melhor dizendo, haviam centenas de clones de Woods e Sotcks por lá. Vendia-se muito o vinho Cantiga do Sul, mais barato impossivel, fazendo seus consumidores, após duas garrafas, deitarem no chão em posição fetal e despejarem parte dos espetinhos e da pipoca pela calçada (vi vários desses caras literalmente dormindo e virando encima de seus 'embrulhos'). Escatologias à parte, ainda assistimos o Harppia, uma banda de heavy que já tem 25 anos, sem nada a acrescentar e a qual nunca ouvi falar. O cara cantava como se tivesse a dentadura solta.
A essa altura, estávamos cansados e sem dinheiro. Já passava da meia-noite e o único caixa 24horas por perto estava lotado. Ficamos uma hora na fila, se não mais, e perdemos o começo do show do Paul Di'Anno (aquele do Iron). Podres, resolvemos ir até a crackolândia assistir os Mutantes, que só iam se apresentar às 3hrs da madruga. Pensamos em assitir um filme de Vampiras na Galeria Olido, mas estava lotado, pois o pessoal que entrou nas primeiras sessões não saíam da sala, enchendo o local.
Pois é, exatamente às 3hrs resolvemos ir embora, bêbados, cansados, podres e exaustos. Devo reconhecer que não tenho mais aquele pique todo. Teve gente que virou a noite e ficou por lá o dia seguinte inteiro. Pensando agora, nos arrependemos de ter saido de lá tão cedo. Só resta esperar pelo anop que vem e preparar a carcaça para uma nova virada.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Festinha animada!!

Como é sabido de alguns amigos, eu estou trabalhando, claro,é preciso ganhar vida ainda que se esteja na rica ilha da Bretanha. O “serviço” que eu arrumei, graças ao meu amigo Magoo, imagino que alguns leitores o conheçam, ele é de Floripa, um velho amigo dos meus tempos de “Johnny Lee”. O trabalho é em um Club, uma boate que tem 4 ambientes, e é contratada por promoters que promovem festas dos mais variados tipos.

Eu, particularmente, não tenho preconceitos com relação à opção sexual das pessoas, claro! Acontece que da mesma forma que um homem Gay, olha pra uma menina olhando para o seu parceiro e pensa: “Essa perua dando em cima do meu macho”, eu, como homem não gay que sou, tenho minha opinião sobre uma festa gay! O caso é que um homem que não é gay, não gosta de pinto, nem de ver pinto a não ser o seu próprio, certo? Meus amigos e amigas homossexuais, por favor, me perdoem, mas não posso deixar de dar o relato de um homem em uma festa gay.

Mulheres não entram. É um evento pro pessoal se sentir bem à vontade! O cenário armado é de um ambiente com correntes gigantes penduradas pelo salão, panos brancos arrumados no teto e nas paredes pra dar um astral de harém, tecidos pretos com desenhos, em branco, estilizados de homens do tipo, fisiculturistas com coletes, barba e óculos escuros com cara de machão. Pequenas estruturas de madeira, tipo umas casinhas, montadas lá pelo meio, que se podia entrar, e dentro, uma espécie de pequeno labirinto com furos nas paredes na altura da cintura! Não imaginei bem pra quê que aquilo serviria, depois eu entendi que não teria outra função que não esta que se imagina logo de cara! E por fim, um telão passando vídeos de sexo explicito gay masculino. Neste dia, além de engenharia de som, eu estava fazendo também iluminação. Este trabalho é no palco, em uma mesa de luz onde por ela se controla todos os equipamento de luz da boate. Canhões, holofotes, fumaça, essas coisas! Bom, cenário armado, então começa a chegar o pessoal. O pessoal no caso, eram muito parecidos com os caras dos tecidos pretos. Todos de barba, “marombados”, do tipo machões. Alguns com óculos escuros e tal, tipo caminhoneiro, aquela coisa. Alguns mais ousados, vestiam um figurino tipo cueca de couro, roupas justas, sungas do tipo sepacol (onde o fio dental não alcança!!). O evento lotou! E lá pelas tantas, o pessoal todo estava sem camisa, sem mulheres, todos muito apertados, suados, barbados, do tipo machões, dançando e pulando, e tive a impressão que ninguém era de ninguém, a coisa era livre!!! Enquanto isso, no telão, homens do mesmo estilo bombando, não observei muito os detalhes dos vídeos. Daí começou o show! Sim amigos, tinha show! E o pior, eu tinha que ficar iluminando o pessoal do show! Eles usavam sungas de patinho e coraçãozinho do tipo sepacol! E dançavam fazendo questão de mostrar que suas partes íntimas estavam prontas pra batalha, com gestos insinuantes e músculos à flor da pele, e o promoter todo agitado, que não era diferente dos outros, ao meu lado dizendo o que fazer com as luzes! Quase que EU disse pra ele o que ELE deveria fazer com elas!

Como não se pode fumar em ambientes fechados, o cheiro que lá havia, eu prefiro nem lembrar e deixo ao encargo da imaginação de vocês! Cheguei em casa horrorizado! Não que eu tivesse alguma dúvida sobre minha orientação sexual, mas garanto que não resta mais dúvida alguma sobre isso! A balada “bombou” das 22:00h até 6:00h.

Só sei que foi assim!


Juliano Binder

terça-feira, 22 de abril de 2008

Crônica sobre Nenhuma Crônica

Demorei um pouco para postar mais uma crônica porque fiquei indeciso sobre o tema. Como assim?Tive preguiça também. Ah, bom!
Na verdade, pensei em escrever uma crônica sobre o show que os New York Dolls fizeram no Hangar 110, em São Paulo. O show aconteceu na mesma noite em que os The Doors faziam uma apresentação única na cidade. É certo que, da formação original, só restavam dois membros de cada banda, mas, se os Rolling Stones ficassem reduzidos a Keith Richards e Mick Jagger, mudaria alguma coisa? Pensando nisso, resolvemos assistir os New York Dolls, lendária banda do início da década de 70, precursora do punk, apresentando-se vestidos de mulheres e maquiados exageradamente, fazendo um som básico, semelhante aos Stones inclusive, mas muito mais tosco. A maquiagem da banda influenciou o glam rock dos anos 70 e até o hard rock dos anos 80. Depois do sucesso do primeiro disco, foram empresariados por Malcom MacLaren, quando os excessos de biritas e a falta de experiência de Malcom abortou a banda. Pouco mais de um ano depois, inconformado, Malcom tentou a fórmula de novo, desta vez, com uma banda formada deliberadamente para causar impacto, no caso, os Sex Pistols. Já Johnny Ramone, depois de ter assistido literalmente dezenas de shows dos Doors, Beatles, The Who, Stooges, MC5, Jimmy Hendrix e outros, bastou ter assistido um único show dos NYDolls para bater aquele estalo de que estava na hora de formar sua própria banda, no caso, os Ramones.
Não há o que reclamar do show dos caras, eles mandam bem e seguram legal, inclusive tocaram uma versão bem punk de Piece of my Heart, da Janis Joplin. O problema é o Hangar 110. O lugar até tem seu 'charme', mas é muito apertado e quente (analogias à parte). A parte boa de termos ficado uma hora cozinhando numa fila, só para comprar cervejas, é que bem na nossa frente os Forggoten Boys tocavam aquele bom, velho e sujo rock de garagem, com direito a cover dos Stooges. Porém, nada de mais aconteceu pela noite, estavam lá o Clemente dos Inocentes, o Redson do Cólera, os caras do Rock Rocket e, claro, a MTV. Por tudo isso, resolvi não escrever a crônica sobre os New York Dolls.
Na semana passada, foram exibidos no Centro Cultural Banco do Brasil os filmes do filósofo francês Guy Debord, cujas idéias sintetizadas no livro A Sociedade do Espetáculo, publicado na década de 60, inspirou não só as cabeças dos universitários franceses do Maio de 68 como também as práticas de protesto, utilizando-se das ferramentas da mídia e da arte (cinema, rádio, música, jornal, fanzine), influências visíveis até hoje, inclusive em organizações como o Green Peace e os grupos anti-globalização. A interpretação de Debord é que a realidade cotidiana, já nos anos 50/60, estava caminhando rumo a uma tal artificialidade que tudo que a mídia exibia virava espetáculo, ou seja, a própria realidade tornava-se um produto de consumo para as massas, idiotizando a população. Para tanto, Debord e seu grupo, Os Situacionistas, criaram o conceito de intervenções no cotidiano, criando situações bizarras, distúrbios surreais e fora de contexto, para chamar a atenção a causas políticas, sociais, artísticas enfim. Tornou-se comum protestos com os manifestantes em silêncio, com as mão amarradas e amordaçados em frente à Prefeituras ou Palácios de Governo, numa alusão a como os políticos vêem e tratam o povo.
Há alguns anos, um grupo de amigos em Curitiba-PR, resolveu fazer uma série destas 'intervenções', apesar de muitas delas estarem mais próximas a vandalismos (invadir casas e mudar objetos de lugar, amarrar poemas em pedras e atirá-las pela vidraça alheia, etc.). Um deles, particularmente, achei genial: encheram um velho aparelho de televisão com centenas de bilhetes escrito “veja o que a televisão faz com sua cabeça”, e a atiraram pela janela do terceiro andar de um prédio. A visão do aparelho espatifado, ao lado de um ponto de ônibus, com aquelas centenas de bilhetes espalhados pelo chão, chegou bem próximo de uma intervenção artística bem elaborada. Pelo menos, os caras tiveram o bom senso de fazer o negócio quando a rua estava quase deserta, pra não machucar ninguém e para não serem presos, claro.
Pensando nisso, um protesto interessante foi feito semana passada na Praça da Sé, em Sampa. Os manifestantes, dispersos pela praça, de repente ficavam 'congelados' em suas posições (caminhando, amarrando sapatos, lendo jornais etc) como se fossem estátuas vivas, durante uns três minutos, enquanto alguém discursava brevemente. A idéia era representar a imobilidade e a apatia do povo diante da atual situação.
Pensei, portanto, em escrever uma crônica sobre essas intervenções no espaço urbano, mas alguns problemas domésticos, a preguiça, um GTA que pintou no micro e a chuva espantaram a idéia.
Pensei em escrever sobre os talentos individuais e o processo de criação das pessoas, mas percebi que acabaria falando sobre meu umbigo, tentando justificar minha própria apatia. Todos, ou pelo menos a maioria, tem capacidade de escrever, desenhar e tocar um instrumento, mas poucos tem uma extrema facilidade para escrever, outros para desenhar e alguns para tocar e compor. Aí lembrei do nosso amigo Binder, de como o cara tirava inspiração para fazer as coisas. Tive a oportunidade de presenciar e participar da construção de sua guitarra. Como ele tem facilidade para entender de eletrônica (matemática e física eram brincadeira) e muito afinado com música, projetou e construiu sua guitarra quase sozinho (requisitou os serviços de um marceneiro e uma outra pessoa para colocar os trastes do braço), bolando e instalando os captadores e que tipo de timbre ele queria do instrumento. O resultado é uma guitarra que pode não ser perfeita e talvez nem seja tão boa tecnicamente falando, mas é com certeza uma guitarra única (uma Binder Stratocaster?), a qual já deve ter sido mexida e remexida várias vezes pelo amigo, buscando aperfeiçoá-la. Eu espero, Binder, que ainda tenhas essa guitarra e que não tenhas sido louco de vendê-la.
Agora, sobre o quê era mesmo esta crônica? Bandas de rock, intervenções urbanas, distúrbios no cotidiano, talentos individuais, processo criativo, guitarras... Acho que era sobre a capacidade de algumas pessoas em tocar muitas outras, e na nossa tentativa de mudar alguma coisa com tudo isso.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Muito obrigado!

Ora ora ora!!! Gostaria de exclamar que fico extremamente honrado com a homenagem do amigo Defa. De fato, este dia se aproxima!

Muito obrigado!!

Gostaria de colocar aos amigos que este nosso blog coletivo está mesmo divertido. Agradecer aos leitores, principalmente, porque estamos com 87 visitas em 7 países! Como ele é coletivo, eu convido os amigos leitores, que são também escritores, a darem sua contribuição.

Tomei a liberdade de colocar um link do blog do John Stills, que é um blog amigo.

Tenho me divertido muito com os textos paulistanos do Caresia, as histórias do Defa em Tel-Aviv e gostado muito de escrever sobre Londres. Logo terei mais uma aventura por aqui!

E mais uma vez, “Vida longa ao Biritas Crônicas”.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Homenagem

Aqui vai uma homenagem ao Binder que deve estar de anivesário em algum desses dias mas eu não sei quando. Ou é em maio, junho?, ou foi em março? Aqui vai essa figuraça que se chama Blind John Davis.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Animais Urbanos

Animal urbano / habitante subterrâneo /
entre escombros e ruínas / sua alma está faminta”
(Inocentes)


Os pequenos e médios animais são conhecidos pela variedade de espécies pelo mundo. Quanto menores são, maior a diversidade de suas características particulares. Cada selva, deserto, floresta, campo, litoral tem um tipo específico de roedor, pássaro, réptil, aracnídeo etc. Tem tipos de rãs e aranhas que só existem numa pequena região do pantanal mato grossense, por exemplo. E nas cidades, tanto as grandes quanto as pequenas? Os tipos mais comuns nas metrópoles quase sempre se reduzem a pássaros (pombos e pardais), cães, gatos e ratos. Moscas, mosquitos e baratas também são figurinhas carimbadas em qualquer canto.
Em Sampa, os cães de rua realmente botam medo. São enormes, mal-encarados, sujos e, a maioria, inclassificável quanto à procedência de raça. Quando meu filho e minha irmã vieram nos visitar por aqui pela primeira vez, ficaram com medo de andar pela rua e topar com aqueles 'bezerros' molambentos soltos por aí. É comum por aqui acontecerem ataques de pit bulls. Num único final de semana, foram noticiados cinco casos fatais, todos em diferentes partes da cidade. Com isso, não é raro encontrar pit bulls abandonados e famintos por aí.
Acredito que o paulistano, aliás, desenvolve um tipo de sexto sentido que o faz desviar dos cocôs de cachorro sem precisar olhar para o chão. É claro que nem toda merda por aí é canina. Tem muita merda humana disputando com a canina o seu espaço vital nas calçadas. A maioria desses cães vadios, no entanto, é mais mansa que os pardais. Ou seja, eles só tem tamanho mesmo.
Falando em pássaros, os pombos surpreendem pela quantidade, pela ousadia e pela coragem. Enquanto até os cães fogem do famoso 'churrasquinho grego' feito nas calçadas (pra quem não sabe, é aquele espeto rotativo na vertical com carnes de tudo quanto é tipo e idade, servido com pão francês, apelidado por aqui de 'gato bailarino'), os pombos disputam espaço com os humanos em volta da urbana iguaria, chegando até mesmo a bicar, na cara dura, as migalhas de pão com carne que caem encima dos sapatos e tênis das pessoas. Uma cena quase dantesca: estávamos, a Marion e eu, comendo num Black Dog (famosa casa de hot dogs de Sampa) e, quando outro casal levantou de sua mesa e foi embora, uma nuvem de pombos, que eu até então nem tinha percebido que estavam só de olho, encima do muro, desceu sobre a mesa para devorar, num misto de êxtase e delírio animal, os restos do lanche. Parecia uma cena do filme Os Pássaros, aquele bando alado bicando batatas fritas, até brigando uns com os outros pelos restos de vinagrete. Também é comum encontrar pombos sem pés ou sem dedos, devido à uma cola especial que as pessoas espalham pelos parapeitos das janelas e no alto dos edifícios, para aleijar e espantar os bichos. Quem conhece os pombos sabe que os caras tem uma memória fotográfica quanto aos locais aonde pousar, portanto, quando perdem os dedos, não voltam mais para lá. Em Floripa, o histórico Mercado Público teve sua fachada ameaçada pela merda corrosiva desses pássaros, afinal, tanto lá quanto em Sampa, eles atacam tudo quanto é lixo e restos de comida na calçada (em alguns momentos, parecem verdadeiros porcos com asas), ficando literalmente urubuzando um indivíduo que esteja comendo algo na rua, andando em volta dele.
Já os famosos ratos são os mais difíceis de seres vistos, mas com certeza são mais numerosos que a própria população. Moramos na Vila Nova Cachoeirinha, periferia da zona norte de Sampa, espremidos entre a Casa Verde e a Freguesia do Ó (berços do movimento punk paulistano) e na maior parte do dia, mantemos as portas fechadas. No final da tarde, fechamos até as janelas. Não por medo de ladrões, mas para que os ratos não entrem em casa. Inclusive, tampamos com jornal o cano de escoamento de água da máquina de lavar roupa, assim como a tampa do vaso sanitário fica obrigatoriamente abaixada, exceto quando usada, claro. Deve ter rato com descendência anfíbia por aqui. Na primeira noite que passamos nesta casa, a Marion acordou berrando às cinco da matina dizendo que viu um rato encima de nossa cama! Três dias depois, flagrei um deles caminhando tranqüilamente pela sala. Depois disso, adotamos as precauções que descrevi acima (Adiantaria termos um gato? Não sei, os gatos tem o costume de caçar os ratos pela rua e trazê-los para dentro de casa). A impressão que se tem é que não são os ratos que invadem as casas, mas sim, que as pessoas construíram suas casas no terreno onde os ratos tinham suas tocas há tempos, o que é bem possível.
Como expliquei no começo deste textículo, é provável que tais animais urbanos tenham comportamentos e características diferentes nas várias cidades grandes pelo mundo afora. Ou até possível que outros tipos de animais, que não estes que citei, circulem pelo espaço urbano, como elefantes, vacas e macacos em algumas cidades da Índia e da Ásia, vivendo de nossas sobras e do lixo (na rua onde moro, já vi até cavalos rasgando sacos de lixo e comendo os restos), dividindo espaço nas ruas com os carros e os cães cheirando seus respectivos cus alheios.

O Bufão que não era Bobo (e o cavaleiro que era corno)

Pois é, resolvi postar um poema meu, só pra ver no que dá. Este aqui, foi publicado na XII Antologia Poética Hélio Pinto Ferreira, em 1998.

Ainda ouço a risada irônica do bufão
quando roubou de um cavaleiro a caneca de cerveja
e adicionou-lhe uma dose
de licor de cereja.
Por isso, até lhe poupou a sorte o cavaleiro,
não fosse ele inimigo da morte,
porque até lhe agrada
beber cerveja e coisa forte.
Mas, quando viu o bufão, triste infeliz,
a flertar com sua dama
como qual fosse meretriz,
fechou o punho e quebrou-lhe o nariz.
Quando o bufo mequetrefe veio ao chão,
rogou pragas ao cavaleiro
e prometeu vingar-se da humilhação.
Sacou então o cavaleiro sua espada
e atravessou-lhe o bufo coração.
Porque bufão enquanto dança
é alegre e não descansa
mas quando bebe e enche a pança
vai além donde a paciência alcança.
A dama, no entanto,
chorou sobre a bufa carcaça
e bradou perante todos que,
pelo cavaleiro, nunca fôra casta.
Restou-lhe então a fama
de cavaleiro bom de espada
mas bufão de cama.

Esse poema é inspirado naqueles poemas medievais, cantados pelos bardos, contando as façanhas heróicas dos cavaleiros e nobres, aqui devidamente ironizado como uma chanchada.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Dia da Sirene

Alguém já tinha me avisado que hoje, terça feira, seria o dia da sirene. O que vai acontecer?, eu perguntei. E a pessoa me falou que iria tocar uma sirene que se pode ouvir no país todo e em alguns lugares algumas pessoas fazem exercícios de evacuação de emergência, no caso de qualquer eventualidade. E a gente deve fazer alguma coisa? Não, ela me disse, acredito que na universidade talvez façam alguma coisa, mas se for o caso, vc vai saber. Assim, eu já estava avisado. Já sabia que hoje iria tocar a tal sirene que se escuta em todo o país (Israel é um país que vc atravessa de leste a oeste em 3 horas e de norte a sul em 5) e estava até meio curioso pra ver o que iria acontecer.

Hoje pela manhã, depois que minha landlady saiu para o trabalho, eu estava pronto pra entrar no banho e o telefone começou a tocar insistentemente. Fui atender, dificilmente atendo o telefone. Era ela, a landlady, me dizendo que hoje iria tocar uma sirene e que eu não precisava me assustar, era apenas algo rotineiro. Como eu já estava sabendo, agradeci e desliguei. Fui pra universidade. Hoje no Departamento de Estudos Orientais haveria umas palestras sobre budismo e eu estava interessado em assistir.

Lá pelas 10 da manhã, quando estava saindo da minha sala para ir assistir as tais palestras, começou a tocar a sirene. Fui na janela dar uma olhada no movimento e nada parecia ter se alterado. As pessoas caminhavam normalmente, conversando. Reparei que não dava pra saber de onde vinha a tal sirene, mas que possivelmente vinha de muitos lados. No campus todo, no bairro todo, na cidade toda, no país todo se ouvia a tal sirene. Sai da sala e quando passei pela porta do Departamento de Língua Inglesa a secretaria me chamou e falou que tinha se esquecido de comentar comigo sobre o dia da sirene. Eu disse, que tudo bem, que estava sabendo, mas curioso perguntei se a gente deveria fazer alguma coisa. Não, ela disse, era só um exercício. Aí deixei a curiosidade estravazar e perguntei como é que a gente iria saber se o negócio era a sério mesmo. E ela me respondeu que se a sirene soasse por mais de um minuto e meio, era sério. Então, perguntei novamente, o que a gente deve fazer se soar a sirene "a sério"? Existe um alçapão no chão da cozinha, a gente deve correr pra lá e entrar no alçapão. Ah sim, eu falei pra ela, já vi esse alçapão lá na cozinha. Fui assistir as palestras.

Além desse alçapão no chão da cozinha, eu já tinha visto uma placa no subsolo da biblioteca central em que está escrito "shelter" (abrigo). A primeira pessoa que tinha me falado sobre a sirene, também comentou comigo que "eles" (a prefeitura imagino)ainda não tinham devolvido as máscaras de gás que haviam sido recolhidas no último "recall" (parece que não protegiam contra certo tipo de substância). Todo cidadão israelense possui uma máscara de gás, deduzi. Menos eu, que não sou cidadão. Imagino que em caso de necessidade deva haver algum lugar em que eu possa conseguir uma.

Mas o negócio é esse meus amigos. Máscara de gás, abrigos (anti-aéreos, anti-bomba atômica) essa é a vida aqui. Isso, entre outras coisas, faz das pessoas que vivem aqui uma sociedade. Em outra oportunidade eu comento o resto da conversa que tive com a primeira pessoa que me falou sobre a sirene. O assunto era "o que fazer com o caso dos árabes". Os árabes estão por todos os lados, literalmente. Eles habitam aqui, eles vivem aqui, estudam aqui, vc vê eles pelas ruas, nas universidades, etc. Então, não existe um "apartheid" como pode-se imaginar. Ou melhor, talvez exista, mas ele tem características mais sutis, pelo menos aqui, fora de Jerusalém, pois lá tem um muro bem evidente dividindo a cidade em duas. Mas o negócio é que o muro também não é assim um empedimento, ajuda eles dizem, pois eu passei de um lado a outro (quando estive na Palestina) e ninguém nos disse nada, e eu estava em um carro cheio de israelenses. Chegamos até mesmo a parar numa verdureira pra comprar algumas coisas, pedimos informação a umas pessoas que passavam, e tudo se passa normalmente sem nenhum indício de estranhamento.

Portanto, percebam que as coisas aqui são mais complicadas do que se pode imaginar, mais complexas eu deveria dizer. Muito mais do que se pode ver na televisão ou nos jornais. Aliás, vou repetir o que venho dizendo desde que cheguei aqui: não assita mais ao noticiário sobre o oriente médio, venha para a Terra Santa e confira você mesmo.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Odisséia Postal

Antes de começar a “biritar cronicamente” preciso dizer que estou em Tel Aviv estudando e o Binder me chamou para compartilhar algumas impressões israelenses de um brasileiro aqui neste blog coletivo que é aliás uma idéia muito bacana. Vida longa ao “Biritas Crônicas”!

Entre algumas das estranhisses com que tenho me deparado aqui está –além também de “monólogos coletivos” (usando a expressão do nosso co-autor Caresia, no post ali embaixo) que poderei descrever mais adiante, por que aqui também tem doido que fala sozinho (além de mim mesmo, assim também como o Binder) e em hebraico, é claro--, o funcionamento de certas instituições públicas, como o correio. Isso decorre da forma como esta sociedade aqui se organizou, se formou e vem se desenvolvendo. Sempre digo e repito, imaginem vocês que esse país aqui ainda não fez 60 anos. Isso tem um monte de conseqüências e, contra elas, não adianta na minha opinião vir com a justificativa de que a cultura judaica é milenar, pois não estou falando de judaísmo, mas de israelenses, coisas que faço questão de separar, mesmo sabendo que em muitos casos não são separáveis.

Bom, mas me aconteceu de experimentar o quanto é difícil de se mandar um cartão postal aqui em Israel e também hoje em dia. Muito mais do que "hoje em dia", aqui em Tel-Aviv é tão complicado de se conseguir botar um postal no correio que... como se não bastasse a dificuldade toda devido aos tempos atuais, o correio aqui em Israel... e não é apenas pela minha experiência que digo isso, já vi e ouvi mais de um cidadão israelense reclamando do correio daqui.

Primeiro de tudo, achar um postal a venda. Onde? Em Ramat Aviv (o bairro em que moro) não existe um lugar sequer em que seja possível de se encontrar um. E eu procurei: shoppings, papelarias, correios, livrarias, etc. Nada. E o curioso é que Israel é um país com grande influxo de turistas. Imaginei então que em algum lugar deveria haver os tais postais. A minha landlady aqui em casa ri de mim dizendo que hoje em dia ninguém mais manda postais. Fui persistente, mas agora eu entendo. Se vocês soubessem o que estive fazendo pra mandar uns meros postaizinhos... No dia de hoje ainda, tive mais um capítulo da novela.

Mas, voltando à parte em que eu ainda não tinha os postais... Finalmente consegui encontrá-los a venda no centro da cidade. Comprei os postais. Tudo bem, agora era só colocá-los no correio. Antes fosse simples assim. A começar pelo fato de que eu tinha que escrever alguma coisa neles, afinal estava (estou) mandando para os amigos e conhecidos. Foi então que descobri que não sabia mais o que escrever em um postal. Experimentem vcs mesmos. Acho que de tão acostumado a escrever emails, vários por dia, alguns tipos de textos ficaram obsoletos ou esquecidos e, como não praticamos, esquecemos ou desaprendemos. Fiz um esforço e comecei a "preencher" eles.

Outra questão que surgiu foi a dos endereços. Eu tinha que conseguir os endereços das pessoas pra quem queria mandar os postais. Para conseguir isso tive que mandar emails, vários a várias pessoas, pedindo endereços. Tive que anotá-los e depois passar para os cartões. Não mencionei nada a respeito do fato da escolha dos cartões. Geralmente, todos sabem (ou sabiam, quando ainda se mandava postais) que as fotos de postais são sempre um tanto ultrapassadas, antigas e as vezes meio antiquadas, curiosas sempre. Aqui de Tel-Aviv até que consegui encontrar algumas bastante recentes. Algumas mostrando Yafo (Jaffa) junto com Tel-Aviv, interessantes.

Depois disso conseguido e arranjado, fui procurar selos no correio para botar nos postais. Quando comprei os postais, alguns vendedores me ofereceram selos (1 sheqel e 0,50 agorot), comprei alguns. Quando cheguei no correio descobri que a postagen para o Brasil era de 4 sheqels e 0,50 agorot. Tudo bem, comprei outros selos para completar aqueles postais que tinham apenas 1,50 e outros selos de 4,50. Aí a coisa começou a complicar novamente. Fora os selos, tive que botar uma etiqueta de "via aérea" (ou doar avir em hebraico) e o espaço no postal para dizer alguma coisa começou a ficar escasso.

Depois de colocar alguns selos por cima de certas partes que eu já havia escrito antes dos selos, resolvi que para os outros postais iria comprar e colar os selos antes, junto com a etiqueta de via aérea, e depois escrever. O bom disso é que sobraria menos espaço e eu não teria muita dificuldade em "preencher" os postais, afinal, por que deveria escrever muito?, apenas um "Um alô de Tel-Aviv", "Saudades", etc. E de repente me dei conta de que a brincadeira estava começando a ficar cara! Um postal, mais selos, e o trabalho todo, quanto custaria isso tudo? Muito mais caro que um email, sem dúvida, ou um postal eletrônico, desses que temos aos montes pela internet. Preferi não pensar nisso, afinal, mandar um postal virou uma coisa rara, e adquiriu até mesmo um certo charme e, espero, que a alegria de quem os vai receber; além de que como já disse, depois de passado o pasmo com a dificuldade, o negócio se tornou uma brincadeira divertida e que me rendeu até mesmo este post aqui.

Antes de passar ao último capítulo, o de hoje, em que tive mais surpresas, preciso mencionar o fato dos correios aqui funcionarem em horários variados e estranhos. Por exemplo: domingo das 8 as 2, segunda e terça das 3 as 6, quarta das 8 as 11:30 e das 3 as 5:30. Estou inventando um pouco, mas é para dar a sensação que tive às várias vezes que fui no correio e dei com a cara na porta. Bom, hoje o último capítulo.

Hoje é sexta, vai começar o shabat, então tudo funciona só até as 3 horas da tarde. O correio não sei, arrisquei, fui até lá. Estava aberto, dei sorte. Fui no guichê e para minha surpresa o cara me falou que não era 4,50 a tarifa, mas sim 5,25. E agora? Eu disse que a mulher do guichê do lado tinha me dito que era 4,50 e eu já tinha mandado vários postais com 4,50. Ele virou-se para o lado e perguntou à mulher quanto era. Começou uma discussão. Era, não era, etc. O cara se levantou foi perguntar não sei onde não sei pra quem. A essa altura eu sentia um misto de vontade de chorar com vontade de rir. Resolvi rir em português. Volta o cara. Era mesmo 5,25 e a mulher tinha se enganado. E agora? perguntei. Os postais que mandei com 4,50 vão voltar? "Não, não, não" ("Lo, lo, lo" em hebraico) me disse a mulher, eles vão assim mesmo, ela me disse sem muita convicção. Resultado, para encurtar a história que ja está grande demais, tive que comprar mais selos no guichê do lado, com outro cara, porque onde eu estava a fila ja estava grande atrás de mim. Tive que explicar pra ele que eu tinha selos de 4,50 e que precisava completar com 0,75 cada postal, para dez postais eu disse. Ele me deu vários selos pequenos de 0,30 e 0,10 agorot porque não tinha selos de 0,75.

Resulta que os postais agora ficaram com menos espaço ainda para ser "preenchido", pelo menos com mais selos, que no fim eu acho legal. Não mencionei que um dos postais iria para a Argentina, e vou mandar com 5,25 mesmo. O curioso nisso tudo, é que o pessoal do correio não sabe quanto é a tarifa de um postal, pois ficaram discutindo que era diferente do preço da carta, e mais um monte de coisas. Não comentei nada aqui a respeito de uma outra "odisséia" que passamos eu e a Clara, quando ela resolveu me mandar uma surpresa de aniversário pelo correio. Depois de muitos telefonemas atrás do pacote, várias idas ao correio e muitas discussões e de ter pedido para alguém que falasse hebraico interferir, um mês depois de chegado o pacote em Israel consegui receber ele em casa, mas não sem antes passar por uma pequena confusão com o carteiro, porque o interfone aqui do apartamento não funcionava direito. Amém.

sábado, 5 de abril de 2008

Sou de Marte

Algumas coisas nos parecem evidentes ou óbvias, no entanto, de fato, outras nem tanto a nós, mas um tanto a mais a outros, e muitas vezes, ou quase todas, nos aproveitamos disso, tipo quando queremos vender alguma coisa e nos parece evidente que um bom preço seria 50 e, ao possível comprador, parece evidente que 100 seria um bom preço, e daí, percebendo isso, pedimos 150 (eu particularmente acho isso engraçado, como no filme “O Cheiro do Ralo”)! Uma prática, de certa forma, normal, e claro, que o âmbito da normalidade tem certa relação com o grau ou valor de importância que cada qual dá às coisas das quais se tratam, e ainda aliada, à normalidade, à falta de entendimento que cada um de nós tem de cada coisa.

O caso é que por aqui, na Europa, as pessoas reconhecem os seus pela sua descendência. Por uma função histórica, penso, porque sempre foram vários povos e viajavam de um lado ao outro e tudo o mais, e claro, antigamente não tínhamos burocracias nem passaporte, consulados, imigração. Se andava à cavalo por aí tudo, ao ser indagada sobre sua identidade, se respondia: - Sou Giuseppe, filho do Francesco, o Sapateiro, casado com Edit filha do Livreiro. E assim se identificava uma pessoa. Nós, no Brasil, não estamos habituados com isso, porque, não sou historiador nem antropólogo, mas penso que por termos sido colonizados, e ainda por ser uma terra de ninguém nos tempos antigos (só nos antigos?). Pra resolver este problema de quem é Brasileiro, os nossos amigos que faziam as leis por lá então, legislaram: Quem nasce em terras Brasileiras, é brasileiro! Isso resolveu um monte de problemas, imagino, pois quantos povos, desde escravos, ladrões, fugidos , expulsos, imigrantes, como conta a história que nos ensinaram na escola, iam pra lá, constituíam família e nenhum outro lugar ou instituição os queria de volta ou muito menos leva-los de volta, ou ainda eles mesmos não tinham condições de sair por vontade própria. Uma solução política, para um problema político, assim como nossa história! Reconhecemos os nossos por terem nascido em nossas terras.

Por aqui, eles reconhecem os seus por sua descendência. Sendo assim, como sabia das origens da minha família, fui atrás da minha cidadania italiana pra ser livre pra transitar por aqui, afinal, embora goste muito do Brasil a gente sempre procura novos horizontes e tudo o mais. Eis que se enfrentam alguns problemas, porque todo aquele papo romântico ali de cima não é bem assim, alguns lugares na Itália não nos recebem bem, muitas vezes somos discriminados e de certa forma nos sentimos um pouco aproveitadores da situação, porque afinal, somos brasileiros e corremos atrás de uns documentos que nos facilitem a vida aqui no mundo dos ricos. Tudo bem, compreensível, afinal quem são esses caras lá do outro lado do oceano que vem aqui querer ser o que somos, sentimento um pouco racista, mas ninguém é perfeito e nem é obrigado a aceitar as coisas, enfim...bla bla bla...compreender não significa concordar.

Meu passaporte brasileiro venceu. Então, pensei, não dá nada, sou Brasileiro, e volta aquele sentimento de que neste caso, não estou nem me aproveitando de nada, sou mesmo!! Beleza, coisa linda, aquela coisa, coisa e tal. Bom, descobri que só posso entrar no Brasil com meu passaporte Brasileiro, mesmo que eu tenha outra nacionalidade. Meu passaporte brasileiro só vale na fronteira e só ele vale, nem meu passaporte italiano vale lá, porque consta que sou nascido no Brasil e neste caso, sou obrigado a apresentar meu passaporte válido brasileiro. Ele, o passaporte Brasileiro, não é um documento de identificação válido dentro do Brasil só vale na fronteira, e o pior, pra renova-lo aqui no consulado brasileiro, preciso, além do passaporte antigo, de certificado de reservista, título de eleitor, comprovante de voto na última eleição (todos documentos essenciais e que você nunca vai esquecer de colocar na bagagem), e de um outro documento de identificação válido como identidade brasileira, certidão de nascimento, ou seja, o passaporte antigo não vale como identificação! Então, se alguma coisa acontecer comigo, e não tiver passaporte brasileiro, e chegar no Brasil, e não tiver meu passaporte, eles não me deixam entrar, vão fazer o que, me deportar? Pra onde? Ufa, sorte, pelo menos me mandam pra Itália. Sorte a minha, mas quem não tem, imagino que deva ser lançado no mar, ou no mínimo tenha que ficar lá aguardando algum procedimento que provavelmente leve horas! Nascido, descendente, amancebado, conjugado, dado, ou qualquer M.. dessas são apenas um conjunto de papeis da vida. Ou seja, eu mesmo instituo, eu mesmo legislo, eu mesmo assino e eu mesmo permito e compro uma metralhadora, e assim já me sinto mais importante, faço cara de que isso é uma coisa muito séria, e pronto! Só entra em Marte quem tiver este papel, se não, deporto para Terra, se resistir, metralho!!

Juliano Binder

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Gorjetas e Esmolas

Estivemos (minha gata e eu) em Buenos Aires neste começo de ano. A cidade é aquilo que todo mundo sempre fala: nunca dorme, agitada, bonita, poética, mal-educada... (ops) não é bem isso! Os moradores da cidade de Buenos Aires são seres estranhos mesmo, um tanto arredios, porém, o pessoal da Província (Estado) de Buenos Aires e demais regiões são bem diferentes: simpáticos, conversadores, enfim. Não é à toa que brasileiros não são muito bem vistos, já que nossa espécie, quando viaja em bandos chamados de excursões turísticas, fazem muito barulho e bagunça, além de não terem o hábito de dar gorjetas. E a coisa que mais me chamou a atenção em BA foram justamente as gorjetas.
É verdade que quase não se vê mendigos na rua, diferente de Sampa, onde pode-se topar com dezenas deles a cada esquina e praças nas regiões centrais da cidade. Aqui, desenvolve-se o hábito de andar com moedinhas nos bolsos, pois a cada instante somos interceptados por alguém pedindo dinheiro (ofereci comida para um deles outro dia e o cara negou!!!). Quanto à gorjeta, esse hábito tão disseminado pelo mundo é praticamente inexistente por aqui.
Ou seja, em BA quase não há pedintes nas ruas, mas em conpensação, todos que te atendem pedem gorjeta. Eles não pedem diretamente, é claro, mas ficam te olhando com aquela cara que todo mundo sabe como é. Acontece até da pessoa dar gorjeta pro jornaleiro por uma simples informação.
Numa dessas, dei dois pesos de gorjeta pro garçon de um restaurante. O cara olhou para a nota e devolveu para mim, dizendo que podia deixar assim. Moral da história: dei uma gorjeta e ganhei uma esmola de volta, o garçon deve ter achado que eu precisava mais do dinheiro do que ele, sei lá. No final das contas, gostamos de BA. Se pudermos, voltamos lá para aproveitar melhor os bares, pubs e sebos e, desta vez, com mais moedinhas nos bolsos.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

São Paulo: o monólogo coletivo

Faz pouco mais de um ano e meio que moro em sampa, uma das coisas que mais me chama a atenção na cidade é a enorme quantidade de pessoas que falam consigo mesmas pelas ruas. Não há distinção social, pode ser pobre, malaco, nóia, indigente, bem vestido, engravatado, limpo, homem, mulher, preto, branco, amarelo, verde. Alguns falam alto, dizendo coisas ininteligíveis (tanto no sentido quanto na fala mesmo), outros apenas gesticulam com os braços e a cabeça, como se conversassem com alguém imaginário.
Sei o que você pode estar pensando, mas não se trata do caso daqueles celulares em que o sujeito fala com o outro lado da linha sem precisar pegar o aparelho e grudá-lo no rosto. Também não se trata daqueles 'pastores de praça' ou 'street preachers' que ficam berrando com a bíblia cheirando a sovaco (ou será que seus sovacos é que fedem à bíblias?) em praça pública.
São pessoas que transparecem emoções distintas, tanto nos gestos quanto nas expressões faciais. Algumas falam sozinhas e sorriem, gargalham, com gestos suaves; outras, choram, berram , gesticulam de forma violenta. Também não sei dizer se tais monólogos são provocados por coisas como fome, desespero, viagens alucinógens, bebedeiras, loucura, demência mental, alegria, tesão. Pode ser uma coisa de cada vez, ou tudo ao mesmo tempo agora. Alguns chegam a ser engraçados, prometendo o inferno para alguém que já está lá; outros assustam, fazendo gestos bruscos que podem machucar alguém distraído. Mas todos tem essa característica de falar sozinhos, como se representassem uma peça num palco (não somos todos atores na sociedade?).
Lembro que o poeta Álvares de Azevedo (um dos expoentes do romantismo gótico e sinistro do século XIX no Brasil) o qual vivia em sampa, próximo à Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco, portanto, no centro histórico, dizia que a cidade, com seus botecos imundos e ruas cheias de neblina noturna era um "bocejo infinito", pois nada acontecia de interessante por ali. Já na década de 1920, o modernismo taxou sampa de metrópole cacofônica, expressando as mudanças profundas na cidade (arquitetura arrojada, industrialização acelerada, mistura de vários tipos diferentes de pessoas e seus sotaques, gírias, idiomas e cores). Tem várias pessoas que a taxam, hoje, de capital da solidão. Para mim, sampa parece mais um monólogo coletivo.
A maioria das vezes que vejo tais pessoas é justamente próximo ao centro histórico (Vale do Anhangabaú), mas você pode encontrá-los também nas redondezas da Av.Paulista e mesmo em vários bairros, ainda que em quantidades e frequências menores do que no centro.
Também há monólogos coletivos em London, Paris, Tel-Aviv, Buenos Aires, New York, Floripa? Responda você, do contrário, eu também estarei cometendo um monólogo neste blog.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Viagem de volta pra casa

Voltando de madrugada do meu trabalho, madrugada de sábado pra domingo, mais ou menos umas quatro da matina, eu fui até a estação de ônibus perto do lugar onde trabalho, e peguei um ônibus. O 88, eu sempre pego ele, no entanto, neste dia, eu percebi que ele havia parado em um local meio diferente, um pouco mais atrás do costumeiro. Aquela coisa, London e tal, trabalho, cansado enfim, entrei. Ele andou pelo mesmo caminho de sempre, no entanto, no meio do caminho, o motorista buzinou, piscou as luzes internas, e gritou: - Last Stop!.

Só tinha eu e mais um cabeludo daqueles metaleiro, que estava sentado ao meu lado, nós olhamos um pro outro, e saímos né! Afinal, tinha entendido bem o que o cara disse, LAST STOP!

Conversei com o cara, num frio do cacete, caminhando procurando outro lugar pra pegar um ônibus, era um sul africano gente fina, eu mal e mal entendia o “ingreis” dele, unindo ao meu, já viu! Tudo bem, acabou que ele foi prum lado e eu pro outro, e entrei num Mc Donalds pq estava com fome e frio. E se você quer ver alguma coisa nojenta, veja os ingleses comendo Mc Donands, e seu molhos, bêbados às quatro da manhã! É incrível a capacidade deles de se lambuzar com aquilo tudo e gritar uns com os outros e as meninas e tudo! Enfim, peguei outro ônibus, e desta vez, pessoas bêbadas a gritar, de tal ponto que uma hora, o latão parou p’ruma gata sair vomitando, mas muito rápido, o ônibus parou e ela huaaa pra fora, e o motorista gritava pra ela se ela iria voltar, ele esperando ela vomitar! Ela apoiada no muro com uma das mãos, vomitando, e acenando não com outra mão, e um cara gritando na parte de cima, que isso não era problema dele, eu só entendi depois da terceira vez que ele falou, um “broblem” enrolado que tava foda! O ônibus para quando entra alguém que tenta não pagar o passe, e la vem o cara gritar novamente que não é problema dele, e o motoras dizendo, “Senhorita de saia com jaqueta preta, por favor pegue seu ticket “. Muito engraçado, isso aconteceu umas quantas vezes até descer no meu ponto!

Viagens de ônibus em Londres na madruga rendem!

Juliano Binder